Pare de beijar sapos

Letícia F. July 31, 2012 27

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A gente tem o hábito de idealizar quem gostamos. Não falo apenas de menosprezar os defeitos, mas sim de supervalorizar as qualidades. Quando a conversa flui, sentimos tesão e ainda temos afinidades, pronto: todas as luzes de “é ele” piscam freneticamente e nos deixamos levar pela pessoa que nós criamos na nossa cabeça.

Sim, gostar mais ou menos das mesmas coisas é essencial para termos um relacionamento. Mas será que gostar do mesmo diretor de cinema ou frequentar as mesmas baladas de indie rock colocam imediatamente aquela pessoa na categoria “alma gêmea”? Alguns de nós têm essa mania. Been there, done that. Quem nunca?

Mas às vezes é preciso deixar de lado tal encantamento e focar no que é importante. É uma pessoa de valores (e, por favor, vocês sabem que eu não compartilho dos “valores” que a sociedade prega)? É justo, honesto, companheiro? Se importa quando você está triste? Te ajuda quando você precisa? Tem preconceitos? É solteiro? Está emocionalmente disponível?

Não se trata de ser mega exigente. Todos nós somos um pouquinho malucos, todos nós carregamos alguns traumas do passado, todos nós temos coisas a melhorar.

Então, um dos meus desejos para todos nós é que paremos de idealizar. E, se for da nossa vontade, que encontremos alguém real, de carne e osso, que nos dê a mão quando precisamos e nos beije a boca como se fosse o maior prazer já sentido nesta vida.

Finalmente, um trecho de Caio Fernando Abreu (por favor, PAREM de retuitar as frases do autor no Twitter. A maioria é fake. Leiam alguns textos dele. São curtinhos, são fáceis, são saborosos):

Talvez, sim, talvez eu fosse mulher, porque pensava no príncipe, a minha mão direita era a minha mão e a minha mão esquerda era a mão do príncipe, e a minha mão direita e a minha mão esquerda juntas eram nossas mãos. Apertava a mão do príncipe sem cavalo branco, sem castelo, sem espada, sem nada.

(…)

Eu não podia saber, ele não falava. E, depois, ele não veio mais. Eu dava um cavalo branco pra ele, uma espada, dava um castelo e bruxas para ele matar, dava todas essas coisas e mais as que ele pedisse, fazia com a areia, com o sal, com as folhas dos coqueiros, com as cascas dos cocos, até com a minha carne eu construía um cavalo branco para aquele príncipe. Mas ele não queria, acho que ele não queria, e eu não tive tempo de dizer que quando a gente precisa que alguém fique a gente constrói qualquer coisa, até um castelo.

Caio Fernando Abreu, em O mar mais longe que eu vejo

Que paremos de construir castelos para falsos príncipes.

Post originalmente publicado no Cem Homens em 22 de dezembro de 2011.

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