Ser parceiro de um depressivo

Letícia F. June 13, 2012 60
Ser parceiro de um depressivo

Tenho acompanhado mais ou menos de perto as agruras de uma amiga com um parceiro depressivo. Não tão de perto quanto eu gostaria, porque a vida é ridícula e ele entrou em crise na mesma época que eu. Saber como ela se sente me dói – porque eu sei que também causei essa dor a algumas pessoas (inclusive a ela). Pedi que ela contasse como é conviver com um depressivo. Ela gentilmente o fez.

O relato é um pouco extenso, mas é de grande valia para quem tem alguém próximo passando por um colapso depressivo. Recebi inúmeros e-mails de amigos/familiares/parceiros de pessoas em crise, questionando como podiam ajudar. Eu não sabia responder, porque não estava do outro lado. Agora vocês podem ter uma ideia.

***

QUANDO O AMOR DESCE AOS INFERNOS

Por Domenica Arentino*

Despertei de um sono profundo, coração aos pulos, naquela madrugada. Nem olhei o celular, que tocava na cabeceira na cama, mas já sabia: àquela hora, só podia ser ele. Atendi correndo. A voz quase muda, do outro lado da linha, apenas confirmava o que já sabia:

- Oi, minha linda.

Não sabia muito bem como reagir, tampouco o que dizer. Em parte, pelo recém-despertar (que me impedia de raciocinar direito); em parte pela confusão que sentia por receber uma ligação dele, após um mês praticamente desaparecido; em parte por sempre ficar desconcertada quando ouvia sua voz, sempre. Meu automatismo fez-me óbvia e clichê:

- Oi… como você está?

- Eu tô doente.

O que emergiu em mim naquela hora foi como um soco no estômago embebido em certo alívio. O soco no estômago era por ter a ciência de que começava oficialmente, ali, um período muito difícil. O alívio, porque, finalmente, W. conseguira entender que o que ele tinha era sim uma doença, e não períodos de “tempestade”, ou qualquer expressão atenuante que fizesse da depressão um mero estado de espírito.

Ninguém escolhe amar um depressivo. Assim como uma mãe não escolhe parir um filho com esquizofrenia ou um filho não escolhe ter um pai cardíaco. É preciso, em primeiro lugar, frisar isso de forma muito clara: ninguém escolhe amar um depressivo. Não é síndrome de poeta romântico, nem tendência ao drama, tampouco uma ESCOLHA: não, ninguém é capaz de saber que ama um depressivo, até ele assim se revelar. E, acreditem: é muito, mas muito difícil encarar esta doença, por conta de uma dezena de razões (para ser suave, pois acho que as razões, numericamente falando, extrapolam a casa da única dezena).

Há alguns meses, eu e W. retomamos contato, após quase dois anos de rompimento. As razões para nossa separação foram muitas e nem cabe explicá-las aqui. Mas hoje, olhando-as à luz da depressão e suas consequências e respingos nos relacionamentos afetivos, tornam-se muito mais claras e compreensíveis para mim.

No final do ano passado reatamos, com propósitos firmes de transformar nossa relação, finalmente, em uma vida em comum. Foram tempos muito bons, de intensidade e reafirmação da minha certeza de que sempre fora ele o homem que amei durante todo este tempo.

Ele me contou que, meses antes de voltarmos, passou por um período obscuro e teve que retomar a terapia. Então, com o passar do tempo, foi retomando o controle da própria vida e foi aí que se permitiu, mais uma vez, tentar se acertar comigo.

Eu, sabendo disso, tinha consciência de que, obviamente, ele havia passado por um episódio depressivo (por mais que ele assim não o nomeasse). Mas a verdade é que a gente diminui a importância daquilo que é óbvio e que pode se tornar um balde de água fria em cima dos nossos sonhos. A gente pensa romanticamente numa situação como esta: “nós nos amamos tanto que não vai acontecer de novo”. Mas vai. E essa, talvez, seja a lição mais dolorosa que a depressão impõe a quem convive de perto com quem a abriga: o amor não pode vencê-la. O amor têm a capacidade de tornar a lida menos difícil e dolorida. Pode se transformar naquele tecido acolchoado de dentro da caixa que abriga um cacto estranho e espinhoso. Mas não é capaz de, magicamente, transformar o cacto em orquídea. A gente aprende, lidando com a depressão, que aquilo que contaram nas novelas a que a gente sempre assistiu não é verdade: o amor não supera tudo.

Foi um longo caminho até que W., finalmente, compreendesse estar doente. Porque assim como a gente não escolhe amar um depressivo, ninguém escolhe SER depressivo. Sabe-se, hoje, que a depressão é uma doença das que mais matam mundialmente. Porém os registros oficiais não conseguem ser precisos, já que ela pode levar um indivíduo a óbito por razões diversas. As estatísticas são obscuras e a parte considerável da sociedade ainda insiste em olhá-la por uma lente estranha, cobrindo os pontos mais importantes daquilo que ela é. As pessoas, em sua maioria, ainda não sabem lidar com a depressão. Ou porque não querem; ou porque não têm informação suficiente para compreendê-la; ou porque acham mais fácil equipará-la com uma “frescura” comportamental ou uma misantropia passageira. Poucos de fato entendem que a depressão é um transtorno mental, capaz de dizimar vidas, esmigalhar relações, adoecer corpos e fazer definhar, aos poucos, egos. O deprimido, sem cuidado, vai se desfazendo e se esfacelando aos poucos, muitas vezes sem que isso seja visto a tempo por quem está perto dele. E, em muitos casos, quando a luz vermelha se acende diante do outro, pode ser tarde demais.

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Ser a parceira de alguém nestas condições é doloroso, partindo de um pressuposto básico acerca desta doença: a depressão eclipsa quase que por completo a capacidade do sujeito de amar e de receber afeto. Visto racionalmente por este ângulo, então, a figura do parceiro fica perdida entre tantas incapacidades acumuladas neste estado. Para encarar a depressão, antes de mais nada, você tem que abrir mão da sua relação amorosa com o outro. Trocas de afetos não são possíveis. Planos futuros não têm lugar enquanto o colapso e a crise subsequente não forem embora. Toques simples de carinho no corpo do outro podem não ser bem recebidos. Beijos, idem. Declarações de amor vindas do outro praticamente se tornam utopia. A depressão é uma prova muito difícil pra quem convive com um parceiro acometido por ela: é tempo de doação e entrega unilateral. E a falta de troca pode culminar em períodos de muito cansaço e desânimo da parte de quem está se doando.

Não há lugar para cobrança. Você, cuidando de um deprimido, não tem o menor direito de exigir dele o que lhe caberia numa relação em que ambos estivessem saudáveis mentalmente. Você é obrigado a conviver com a dor com uma proximidade que nem todos são capazes de lidar. Não é nada fácil acompanhar tão de perto uma descida aos infernos de quem a gente ama. Sofremos sobremaneira, tendo que segurar a barra diante do outro. Costumo dizer que conviver com a depressão de um parceiro é estar constantemente com um pano na boca, que você morde em momentos insustentáveis. E que também serve pra abafar o som dos seus gritos pro mundo exterior.

Na madrugada em que reapareceu e confessou (muito mais para si mesmo do que para mim, na verdade) estar doente, W. tinha um propósito muito claro: não apenas justificar os mais de trinta dias ausente da minha vida sem maiores explicações, mas também me pedir que fugisse dele. Ele chorava desesperadamente, com uma verdade que eu desejei não ter detectado por vários momentos. “Fuja de mim, porque eu não sou bom pra você. Eu não posso te dar o que você quer. Isso é muito triste, porque o amor que tenho por você é muito grande e as coisas não deveriam ser assim. Então fuja, vá ser livre, você não merece isso, eu não posso te arrastar nessa comigo.” E chorava até praticamente perder o fôlego.

Como obedecer a um pedido tão absurdo? Racionalmente, é muito fácil concluir: “ele está doente, não pode ter comigo a relação que eu gostaria agora, então, como sou jovem, vou aproveitar a vida e conhecer outra pessoa”. Mas, quando a gente ama, não consegue cogitar isso. E viver com a depressão, então, te obriga a ser forte todos os dias. Não apenas para não ser tragada para o buraco junto com quem você ama, mas, principalmente, para que ele possa de alguma forma se segurar em você do jeito que for possível para não ir ainda mais para o fundo.

Passei por madrugadas muito difíceis. A grande maioria dos deprimidos têm distúrbios do sono. W., mais especificamente, fica insone. E suas crises se agravam sempre no mesmo horário: por volta das três da manhã. Nesses momentos, tenho que respirar muito fundo para suportar o que ouço do outro lado da linha sempre que o telefone toca. Já o ouvi dizer que não via mais saída e que morrer seria a solução para todo mundo. Que ele se tornara um fardo pra mim. Que só me causava dor. Ouvi (milhares de vezes) que eu deveria me afastar dele. Lidei com perguntas como “Você vai sentir vergonha de mim se for procurar um grupo de apoio?”; “Você sente vergonha de amar alguém que tem uma doença mental?”; até outros questionamentos muito dolorosos, como o que eu gostaria que ele me deixasse (das coisas dele) “quando fosse embora”.

Nesse momento, nossa relação obviamente encontra-se em suspenso. Após uma madrugada de crise como as que relatei, a angústia dele foi tão profunda que não consegui aplacá-la por telefone (moramos a 500km de distância um do outro). Então, ele teve a atitude irracional de pegar uma lapiseira e ferir vários pontos do próprio braço como forma de “aliviar a dor” (tática comum usada por vários portadores de transtorno mental para aplacar crises de ansiedade muito severas). Fiquei sabendo dias depois, porque, após este episódio, ele resolveu que não podia mais ficar me ligando durante as crises.

Este, aliás, é um outro comportamento do depressivo com o qual é muito difícil lidar: eles podem passar longos períodos feito verdadeiras ostras fechadas em suas conchas. Por mais que ele te ame, por mais que falar com você e conviver com você faça-lhe bem, ele pode passar algum tempo afastado do seu contato. Essa, talvez, seja a parte mais difícil. Há dias em que não consigo manter o equilíbrio e encarar tal negativa ao meu carinho como parte do ingrato pacote da convivência com a depressão. Por mais que seja hoje muito mais esclarecida e equilibrada, sou humana. E tenho que tomar cuidado para não interpretar o silêncio dele como algo “pessoal”, ou “contra mim”. É doloroso. Muito, aliás. Além disso, a falta de notícias certas horas chega a angustiar mais até do que as ligações durante a madrugada. Não foram poucos os dias em que acordei, pela manhã, com medo de que ele tivesse feito algo contra si.

Apesar de tudo, é animador constatar que, apesar de ainda estar muito instável, W. está muito empenhado em se tratar. Essa é uma conquista que eu posso dizer, sem modéstia, que também é minha: foi graças à minha insistência que W. enxergou e conseguiu nomear esse mal que o acomete. E, apesar da inapetência afetiva que ainda o assombra, ele diz com muita certeza que eu fui uma das razões para que ele conseguisse sair do limbo e procurar ajuda. E uma das razões para que ele siga se cuidando, por mais que ainda atravesse dias muito delicados e em que pense em desistir de tudo.

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Se tem algo que eu possa “ensinar” a quem atravessa uma situação semelhante à minha é: insista e se informe a respeito. Insista para que o deprimido procure ajuda. É claro que ele não vai te ouvir de cara. Mas insista. Você não pode ser mais um a desistir dele. E se informe sobre o problema. Livros, filmes, artigos: se informe. Se a pessoa que você ama estivesse com câncer ou com AIDS, você não iria procurar informações sobre a doença? Por que não fazer o mesmo no caso de um transtorno mental como a depressão? Informe-se pois, assim, é muito mais fácil de lidar com tamanha complexidade emocional que inevitavelmente vai respingar sobre você, cedo ou tarde. E também, dessa forma, você terá muito mais armas para ajuda-lo e compreendê-lo.

Não dá pra dizer que a gente consegue ter “vida normal” nessas condições. A gente tem vida normal “apesar de”. Eu não consigo deixar de pensar em W. nem de acompanhar (dentro daquilo que atualmente ele me permite, é claro) o decorrer de seu tratamento. Levo a minha rotina, trabalho, vejo meus amigos, me divirto. Mas esta se tornou uma porção dolorida da minha existência, que não divido com ninguém na totalidade. Nem meus amigos mais próximos sabem de verdade o que tem ocorrido comigo, porque eu, simplesmente, evito comentar.

Primeiro, porque ninguém merece lidar com questões tão pesadas, que cabem apenas a mim. Segundo, que pouquíssimas pessoas são capazes de entender de verdade quão nefasta pode ser uma depressão, e quão difícil é conviver tão de perto com ela. E, se tem algo que eu realmente não estou disposta a ouvir, neste momento, são julgamentos ou pseudo-conselhos. Cada um sabe onde lhe aperta o sapato. Só eu sei das minhas razões (e dos meus sentimentos) dentro da minha própria história.

Tenho aprendido muito todos os dias: sobre mim, sobre W., sobre os outros. Sobre quem realmente me quer bem e quem está na minha vida apenas pelo prazer de me ditar regras. Tenho andado muito mais seletiva nos meus contatos e isso, apesar de me soar estranho num primeiro momento, tem sido ótimo, pois, consequentemente, tenho aprendido a ficar bem na minha própria companhia.

Não sei quanto tempo levará até que W. saia desta última crise, nem se vamos retomar nossa relação e se vamos ficar juntos. Não sei quanto tempo mais vou suportar isso tudo. Hoje, tenho ciência de que sou capaz, apesar das minhas próprias intempéries, aguardar essa “tempestade” (usando o termo que ele tanto gosta) passar. Aliás, se existe algo que tem-me feito suportar isto tudo firme, forte e sem surtar, e que me faz continuar perseverando, sei que só pode ser o amor que sinto. E isto, meu amigo, não acontece todo dia. Apesar de.

* Nome fictício para preservar a autora.

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