Marcha das Vadias for Dummies

Letícia F. May 27, 2012 246
Marcha das Vadias for Dummies

Ontem aconteceu a Marcha das Vadias em diversas cidades brasileiras (o evento acontecerá em junho em outras cidades, como Macapá e João Pessoa. Em Belém a Marcha rola hoje). Infelizmente não pude ir à de São Paulo porque estava viajando. Mas não fiquei alheia ao que estava acontecendo.

Li em sites de notícias e no Twitter as reações ao protesto. Alguns feministas –  estes lindos e lindas – compartilharam vídeos, textos e fotos das marchas pelo país. Lindo! Podem dizer que são poucas pessoas, mas trata-se ainda de evento pouco conhecido e com reduzido espaço na mídia.

Como não poderia deixar de ser, porém, muita gente falou absurdos sobre a Marcha. É engraçado (de um jeito meio desesperador) ver que muitos dos que reclamam são exatamente os mesmos que passam o resto do ano fazendo piadinhas machistas e misóginas. Nenhuma novidade aí, infelizmente.

Só que ontem consegui explicar o que é a Marcha para duas ou três pessoas extremamente conservadoras, até meio reaças. Quem sabe eu consigo convencer mais algumas com esse post? Então, vamos à Marcha das Vadias for Dummies.

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Muita gente não entende a escolha da palavra “vadia” para designar as mulheres que participam da marcha. Lição número 1: o protesto é internacional, e em inglês chama-se Slut Walk. Slut = puta, vagabunda, vadia e afins. Pra quê usar uma terminologia tão ~pesada~ para nos referirmos a nós mesmas? Porque é preciso esvaziar o conceito de que vadia (e seus correlatos) tem hoje. Chamar uma mulher de puta, vadia e outros termos do tipo serve apenas  para denegri-la. E por qual razão não há o correspondente para o sexo masculino?

Além disso, tais conceitos têm estreita relação com a vida sexual da mulher. Sim, mulher transa e sente prazer, mas alguns ainda nos veem como seres assexuados, cujo órgão sexual serve apenas para procriação e para dar prazer para o outro. Tal ideia se estende ao resto dos nossos corpos. Peitão? É para os moços “mamarem”. Olho azul? Serve para ser admirado. Bunda gostosa? Vem aqui dançar com a bundinha empinada. Ser vadia é ser livre.

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Homem pode sair sem camisa, colocar os braços de fora. E pode ser bonito-gostoso-delícia sem ser importunado na rua. Mulher, não. E ficamos com a estranha sensação de que os comentários toscos que ouvimos são culpa nossa. “Não devia ter saído com esse decote” ou “será que minha saia está curta demais?”, pensamos. As vadias tirarem a roupa durante a marcha é um statement: o corpo é meu, não seu. Portanto, posso usá-lo (e cobri-lo. ou não) a meu bel prazer. Minha blusa rendada e transparente não é um convite para sexo.

 

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23 retweets. Parece brincadeira. Dizer que alguém merece ou não respeito baseando-se  no comportamento sexual ou no modo como se veste é aterrorizante. Especialmente vindo de uma mulher, que não deve conseguir tomar um sorvete na rua em paz, sem ouvir gracinhas como se ela estivesse fazendo aquilo para ~seduzir~ um moço incauto.

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Infelizmente não sei desenhar. Na nossa sociedade (e não estou falando só de Brasil, mas especialmente sobre nosso país) a mulher não é livre para usar o órgão sexual do jeito que lhe convém – o que inclui não usar at all. Estamos sendo sempre bombardeadas com comentários sobre “quão rodada” uma amiga é. Ou que devemos nos encontrar mil e quinhentas vezes com um possível parceiro para deixar ele chegar perto da gente de maneira mais íntima. Chega. Simplesmente chega.

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Falácia do dia: fingir que respeita algo e depois falar mal. Mas numa coisa ele tem razão: grande parte dos recados são mesmo para as próprias mulheres. A Marcha existe, entre outras coisas, para mostrar às demais mulheres que ela não é culpada das agressões de gênero que sofre. Que ela pode. Que ela é dona de si mesma. Muitas mulheres são machistas, e a Marcha serve para mudar isso.

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Verdade! É “pra acabar”, sim. Com o machismo, preconceito, falso moralismo, hipocrisia… As pessoas falam como se a Marcha fosse novidade ou um fenômeno brasileiro. Já não é a primeira vez que marchamos, tampouco o protesto acontece só aqui no Brasil. A Slut Walk começou ano passado, após um policial de Toronto, no Canadá, ter dito durante uma palestra que as mulheres deveriam parar de se vestir como sluts se não quisessem ser estupradas.  Michael Sanguinetti é o nome dele, segundo a Wikipedia.

Sanguinetti repetiu a ideia que muitas pessoas têm: a de que a vítima “procurou” o algoz. E a Marcha das Vadias é “pacaba mesmo” com tamanho absurdo.

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Eu quis contestar, explicar. Só que eu não entendi. Alguém me ajuda?

Pode parecer que “imagina, a mulher tem tanto direito quanto o homem, essas feminazis exageram e blá blá blá”. Quer ver como não é bem assim?

 

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Você só pode protestar se for gatinha, tá?

 

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Ai essas gordas malditas!

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Trate de colocar um silicone, se não o patriarcado não vai te aceitar!

 

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Detalhe: o senhor dessa foto não é lá muito belo e é careca. Típico. "Exige" que a mulher esteja "com tudo em cima", mas nem cabelo na cabeça tem. (adoro carecas. o que eu quero dizer é que NÓS temos que nos submeter para nos enquadrarmos num padrão, mas os homens não)

 

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É marcha, protesto… não desfile.

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E esses são apenas alguns dos comentários sobre a forma física das mulheres que foram às Marchas. Ah, muitos homens participaram, também, mas nas minhas pesquisas no Twitter não vi nenhum comentário sobre a beleza dos mancebos.

Evidentemente li muitos comentários do tipo “Mulherada na Marcha das Vadias: volta e varre a rua que sujou!! Rápido d volta p/casa q tem roupa suja……Valeu”. Inúmeros. O mais incrível ainda é um certo senhor com milhares de seguidores no Twitter e um blog misógino que, é claro, não perdeu a oportunidade de mostrar quão bacana é. Este eu não vou nem disfarçar a identidade:

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E daí esse ser inteligente, de muito garbo e elegância, formado na Sorbonne, resolve zoar uma moça que escreveu uma palavra de maneira incorreta em um cartaz. Repetiu mil vezes a “brincadeira”. Fez um post no blog e tudo (leia de baixo para cima):

 

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A foto a que ele se refere é esta:

 

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A palavra “mexer” é com X, e não com CH.

Ih, Edu, que tal dar uma olhada no próprio rabo, moço?

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OOOOOOOOOOOOOOOOOOOPS.

 

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Ihhhhh. No post também está peripércia. Será que ele vai apagar, como milagre, igualzinho ao que fez nos posts que chamava o Silvio Koerich de “camarada”?

Assim como esse moço, outras ~webcelebridades~ fizeram comentários desnecessários (mas esperados) sobre a marcha. “CURIOSIDADES: marcha das vadias no twitter é conhecido apenas como marcha”, disse aquele que escreve sobre moças de mamilos escuros. Teve também quem dissesse “Não entendo pq o nome tem que ser “marcha das vadias”. Escolhe um um mais decente, porra. Foda-se se no Canadá é assim. AQUI NÃO É O CANADÁ”. Ou ainda “tinha que ir lá nessa marcha das vadias e levar um caminhão de roupa suja pra elas lavarem”.

Todos com dezenas de retweets.

Enquanto isso, algumas centenas de pessoas deram o recado. Poucas? Talvez, para os olhos de alguns, que contam pessoas como meros números. Para quem lida todos os dias com o preconceito e todas as dificuldades inerentes ao gênero, trata-se de uma vitória. A grande mídia foi lá e cobriu. Pessoas que nunca haviam parado para pensar a respeito já estão hoje, tenho certeza, reconsiderando a mania de julgar uma mulher pelo jeito que ela se veste.

Somos vadias, somos livres, somos donas dos nossos corpos. Quero que ele me dê prazer e, talvez, eu queira te dar prazer também. Mas minha roupa e minha atitude não são convites para sexo.

PS: Fiz outro post a respeito, dessa vez respondendo o comentário de um leitor. Cá está.

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