De novo

Letícia F. July 20, 2012 37

Post publicado mais cedo no Tumblr enquanto o site não abria.

name1 De novo

Hoje fui alvo de jornalistas mais uma vez. É curioso como não tenho nenhuma vergonha do meu comportamento sexual, mas quando vejo um repórter distorcendo tudo o que a fonte disse, fico querendo rasgar meu diploma.

Sim, porque eu sou jornalista e sei bem como aqui e acolá damos ênfase a uma frase para chamar a atenção do leitor. Todavia, poucos de nós pensam no limite que se deve observar. Talvez seja porque esse limite é ditado pela ética, coisa que não se aprende nos bancos da faculdade.

Nesse um ano e meio de Letícia, estive algumas vezes na posição de entrevistado-Geni. Jogaram pedras em mim naquela reportagem do Rafael Barifouse (cuja chamada era “Nova Bruna Surfistinha quer transar com cem homens em um ano), na da Folha que dizia que eu tinha vergonha de ser gorda e agora mais uma vez na Época. “Sou piranha, diz blogueira que se propôs a transar com 100.” Está lá no G1. Felizmente o site está fora do ar por causa dos acessos e não serei incomodada com os comentários e/ou emails inconvenientes (apesar de já ter recebido alguns).

Isso ficando no mais óbvio, viu? Teve jornalista que espalhou minha real identidade para todo mundo, por exemplo. Já disse “não” a muitos pedidos de entrevista. Agora pergunto antes sobre qual assunto querem tratar. Recentemente falei com o Correio Braziliense sobre “o que é ser cool” e com um jornal daqui de São Paulo sobre piriguetes.

Não falo mais sobre a Letícia.

Letícia é tão passado na minha vida que criei até um novo site, o Cem +1. E foi para falar sobre ele que aceitei conversar com Nathalia Ziemkiewicz, repórter da Época e blogueira do Sexpedia. Imaginei que, por ser uma profissional que fala sobre sexo, a jornalista conseguiria falar sobre o novo projeto de maneira quase imparcial. Ou que, pelo menos, não me julgasse.

A entrevista demorou semanas para acontecer, tempo suficiente para que ela se preparasse e fizesse pelo menos um esboço das perguntas. Sei qual é a rotina em redação, e ela me ligou sem nada preparado. Pediu para que eu falasse um pouco da Letícia.

Eu falei. Afinal, não me envergonho dela e acho que aprendi demais nos últimos meses. Contei como surgiu, reiterei que a “meta” nunca foi uma meta, disse como é bacana ver um montão de gente crescendo junto comigo.

Conversamos por telefone por mais de uma hora. Falei sobre feminismo, sobre dúvidas dos leitores, contei alguns causos. Foi divertido.

Já desconfiei que a orientação da pauta estava estranha quando, após conversarmos por telefone, ela me enviou um e-mail com perguntas incabíveis, conforme abaixo:

- você transava com os caras que conhecia na balada, no bar… onde era mais comum encontrar essas “presas”?
- você era bem direta na abordagem? mostrava que queria sexo só?
- os caras que você escolhia tinham que passam por alguns critérios ou qualquer um valia?

Achei estranho. Presas? Eu nunca me referi a homens dessa maneira. A minha resposta foi a seguinte:

Eu conhecia os caras do jeito normal que todo mundo conhece. Em vários lugares. Nenhum dos do ano passado eu conheci por site de relacionamento (tipo, sei lá, Par Perfeito). Nada contra, só tenho preguiça. 
Eu sou bem direta, sempre. Mas eu não dizia “ei, quero só transar com você”, até porque a gente não sabe o que vai rolar, né? É só ver o caso do ex-namorado. Na manhã seguinte eu já estava apaixonada.
Sobre os critérios, acho que você não entendeu uma parte crucial: eu nunca transei só para “contar número”. Nunca. Eu só fiquei mais, digamos, disponível (sem inventar desculpas pra sair de casa ou arranjando defeito onde não existia). Eu me abri mais. Só isso. Os critérios são os mesmos de sempre, da minha vida inteira.
Esse é meu posicionamento, sempre. Foi o que disse na entrevista. Até achei que nunca ia virar matéria, pois conversamos há muitos dias. Até que acordei hoje com alguns emails me fazendo propostas de sexo. Logo vi que tinha algo errado.
Daí cheguei ao terrível texto de Nathalia Ziemkiewicz. Acho normal que haja um ou outro errinho, mas a repórter distorceu palavras minhas para fazer meu julgamento. Como sempre, mas como não deveria ser.
O Cem +1, gancho da nossa conversa, aparece timidamente no final da matéria. Claro! Chama muito mais a atenção falar sobre a vida sexual de uma pessoa do que dizer que há algo sendo feito com carinho para falar sobre sexo, não é?
Pois cabem aqui alguns esclarecimentos:
1) Utilizar a história do Cem Homens como gancho para gerar clique é imbecil; não falo dos caras há UM ANO.
2) Nosso combinado foi que falaríamos sobre o Cem +1, o que não foi cumprido pela repórter.
3) Minha família sabe de tudo. No texto, Nathalia diz que eu tinha medo da reação dos meus parentes. Ela está certa. Quem não teria? Mas ela passa muito superficialmente sobre o assunto, como se eu estivesse pouco me lixando pra opinião de quem eu amo. Não é nada assim.
4) Eu não tive depressão por causa de um pé na bunda. Falei para a repórter de vários problemas que tive ano passado e que a depressão é anterior a tudo isso. Claro que o fim de um grande amor dói bastante e pode, sim, ser a gota d’água, mas não foi o meu caso. Eu também não teria problemas em assumir se fosse verdade.
5) Sobre o cara que broxou durante o ménage: cheguei a contar essa história no Cem Homens. Eu não fiquei desapontada, eu achei curioso.
Bom, mas isso tudo não é, infelizmente, novidade. Achei que uma repórter mulher (e que, portanto, deveria entender como a sociedade nos cobra um padrão moralista de comportamento sexual) e que já escreve sobre sexo (isto é, deveria ter bastante bagagem e informação sobre repressão sexual) pudesse fazer algo de bacana e diferente.
Me enganei.
De novo.
Fico chateada, mas não me abalo como outrora. A gente vai criando uma casca grossa depois disso tudo. Mas fica meio cínico, também. Não consigo deixar de me perguntar se é dessa imprensa que quero fazer parte.
De qualquer maneira, não me arrependo nem por um segundo da Letícia. Tenho orgulho imenso desse meu “lado” e sou feliz demais com minhas descobertas e aventuras no sexo.
Sou uma mulher melhor depois da Letícia. E reportagem difamatória ou injuriosa nenhuma vai mudar isso.

Compartilhe!
  • more De novo


Fatal error: Uncaught CurlException: 60: SSL certificate problem, verify that the CA cert is OK. Details: error:14090086:SSL routines:SSL3_GET_SERVER_CERTIFICATE:certificate verify failed thrown in D:\web\localuser\cemmaisum\www\wordpress\wp-content\plugins\seo-facebook-comments\facebook\base_facebook.php on line 825