Cinco pilares para a cura

Letícia F. July 18, 2012 24

depression 1.jpg Cinco pilares para a cura

Eu jurava que quando começasse a falar de depressão perderia todos os leitores. Talvez alguns tenham sumido, sim. Por outro lado, vejo cada dia mais as pessoas pedindo informações sobre a doença e como reagir a ela. Acredito que a falta de literatura acessível a respeito da depressão e de outros transtornos ocasionem isso.

Pensando a respeito, notei nunca ter feito um post mais prático. Aqui vai ele.

Há cinco pilares básicos na busca de auxílio para lidar com transtornos do tipo.

1)  Auxílio médico/terapêutico.

Falo da parte formal: psiquiatras e psicólogos. Muita gente diz não ter grana para pagar esses profissionais. Várias dessas pessoas têm plano de saúde, mas acreditam que não estão cobertas para consultas e terapia.

No passado realmente era assim – os planos também não cobriam fisioterapia ou fono, por exemplo. Já é obrigatório há algum tempo, mas algumas empresas convenientemente “esquecem” de avisar o segurado.

Mesmo se o seu plano não for dos melhores, a terapia está no rol obrigatório da Agência Nacional de Saúde. Antigamente o atendimento com psicólogo limitava-se a 12 consultas por ano, mas o número subiu para 40 em casos específicos, como depressão grave (nos demais são 30 atendimentos/ano).

É importante notar que o “ano” não se refere ao ano fiscal, isto é, de 1 de janeiro a 31 de dezembro, mas sim ao ano de vigência do seu plano. Por exemplo: se o aniversário do contrato é em abril, você tem direito a 30 sessões de terapia entre abril de um ano e abril do ano seguinte. Caso você começasse a terapia agora, teria 30 encontros com o psicólogo entre julho de 2012 e abril de 2013.

Se você está com dificuldades físicas, além de tristeza/melancolia, o ideal é começar com a consulta ao psiquiatra (sempre foi coberto pelo plano, pois afinal de contas é um médico!). Ele provavelmente vai indicar algum tipo de terapia e encaminhar para o serviço atendido pelo plano.

Os segurados costumavam reclamar da demora em conseguir atendimento. Mas a ANS estipulou prazos para a realização da consulta. Com psicólogo são 10 dias úteis e com psiquiatra são 14. (veja aqui os prazos para todas as especialidades.)

Caso você tenha alguma dúvida, o site da ANS é recheado de informação e o atendimento por telefone funciona super bem. Eu já testei quando a Sulamérica me disse que eu só tinha direito a 30 sessões de terapia/ano. Foi pelo 0800 da ANS que eu descobri que teria direito a 40.

2) Remédios.

Não há indicação de remédios para todos os casos. O psiquiatra é que vai falar com você a respeito disso (por favor, não tomem antidepressivos receitados por amigos, pelo ginecologista… o psiquiatra é quem conhece os últimos estudos e novos medicamentos).

Também não tenha medo de ficar dopada/perder a si mesma. Falarei disso em outro post, já atrasadíssimo. Mas hoje quero falar da parte prática. E grana é o mais prático que conseguimos chegar, né?

Antidepressivos, ansiolíticos e afins são caros. À exceção do rivotril, que não custa nem 5 reais e por isso mesmo é super popular e usado como se fosse balinha.

Tente sair da consulta com o psiquiatra já com algumas amostras grátis para começar o tratamento. Não serão muitos – você deve ter remédio para mais ou menos uma semana. Aproveite esse tempo para se cadastrar nos programas de fidelidade dos laboratórios.

Passei meses tomando Cymbalta no preço cheio até que me falaram, pelo Twitter, que a Lilly (fabricante do medicamento) tinha esse programa. E daí descobri que é meio padrão. Como muita gente larga o tratamento porque não consegue comprar os remédios a médio/longo prazo, as indústrias farmacêuticas criaram esses sistemas de descontos.

Procure no site do fabricante pelo programa de fidelidade. Normalmente você precisa se cadastrar por telefone. Eles farão algumas perguntas sobre suas condições econômicas (como, por exemplo, quantas televisões você tem em casa), e daí darão um desconto a partir dessas respostas.

Pronto! O cadastro é feito no seu CPF e você consegue comprar o remédio em qualquer farmácia afiliada (preste atenção nisso! nem todas o são). Por favor observe que o desconto é sobre o preço “cheio” do remédio, então é bom ligar pras drogarias antes e descobrir quanto eles cobram – às vezes o mesmo remédio custa o dobro em farmácias a 50 metros de distância uma da outra.

Alguns planos de saúde também têm uma lista de medicamentos com desconto. É, amigão, dá um trabalho do cacete: chegando ao balcão, pergunte ao atendente quanto o mesmo remédio sai com: o desconto do fabricante, o desconto do plano de saúde, o desconto da própria farmácia (quase todas também têm um programa de fidelização). Normalmente o desconto do fabricante é o maior, mas certifique-se sempre.

Também converse com seu médico a respeito dos genéricos. Alguns medicamentos só têm o “original”, mas vááários têm muitas opções em genéricos. Eu uso zolpidem como indutor do sono, e os genéricos saem por metade do preço do “original”, o Stillnox.

3) Amor

Parece patético eu incluir isso logo abaixo dos remédios, mas é verdade. Cerque-se de pessoas pacientes e que gostem de você. Não é fácil lidar com alguém com depressão, mas garanto que é muito mais difícil TER depressão.

Você provavelmente não vai querer cozinhar e muito menos ir ao supermercado. Se você não quer levantar da cama, imagine se vai lembrar de trocar os lençóis.

Portanto, é imprescindível ter por perto uma rede de apoio, pessoas que vão fazer sua comida, lavar sua louça e colocar roupa na máquina. E que vão sentar ao seu lado no escuro sem falar ou cobrar nada.

4) Informação

Mais um item meio doido, mas como eu disse no início do post, há pouca coisa feita em português sobre o assunto. E, assim, repete-se o velho senso comum de que transtornos mentais são falta de louça pra lavar.

Pior: talvez você acredite nisso e se sinta um loser. Não preciso dizer quão prejudicial esse pensamento pode ser no caminho da cura, né?

Portanto, ignore todas as bobagens faladas por aí. Esqueça a “modinha” de dizer  que são bipolares (deem uma busca no Twitter para vocês verem quantas pessoas se autointitulam bipolares; é assustador).

Busque revistas e artigos científicos, converse com outras pessoas que levam o tratamento a sério, tire todas as dúvidas com seu médico. Um livro que sempre indico é O demônio do meio-dia, do Andrew Solomon (foram leitores do Cem Homens que me falaram a respeito, aliás). É ótimo, muito honesto e cheio de histórias de gente-como-a-gente.

5) Terapias alternativas e atividade física

Todo mundo indica atividade física como essencial para a cura. Eu detesto, então assumo aqui a minha culpa por não ter feito nada. Mas eu quero que você faça, claro.

Além dos exercícios, há uma série de terapias alternativas com resultado bem bacana: acupuntura, florais de bach, yoga. É claro que isso depende do seu estilo e das suas crenças, mas não os menospreze. Aprender uma nova atividade, como artesanato, por exemplo, pode ajudar horrores. Reconheço no meu passado um momento bem difícil (àquela altura não imaginava que poderia ser depressão, pois eu também tinha meus preconceitos a respeito). Foi justamente quando comecei a fazer biscuit e pintar caixinhas.

Gostei tanto que comecei a fazer coisas pequenininhas e fofas na cozinha, também. Fiz curso de confeitagem e de chocolates. Hoje adoro tudo isso e me fez um bem enorme saber que eu era capaz – como sou meio durona e agitada, achei que não tinha jeito para atividades mais “femininas” (olhem os papéis de gênero cagando nossas vidas).

Bom, espero ter coberto – ainda que meio superficialmente – os caminhos para começar a se tratar. Vá em frente. Você consegue. E qualquer dúvida estou por aqui.

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24 Comentários »

  1. Thaiana Lopes July 18, 2012 at 20:02 - Reply

    Lê, vale lembrar que alguns remédios tbm são distribuídos em postos de saúde… Adores o post! bjus

    • Thaiana Lopes July 18, 2012 at 20:05 - Reply

      *adorei

    • Letícia F. July 18, 2012 at 17:12 - Reply

      Sim, Thaiana, mas eu quis colocar coisas que valessem pro Brasil inteiro!

  2. Anny July 18, 2012 at 17:05 - Reply

    LINDA!!

  3. L. July 18, 2012 at 17:17 - Reply

    Obrigada pela ajuda, Lê! Acabei de dar o primeiro passo, segunda-feira passada consegui pedir ajuda para minha mãe e terça terei minha primeira consulta com o psiquiatra. Realmente é difícil aceitar que estamos doentes, sempre parece ser “frescura”, mas depois de semanas na cama, sem sair nem para tomar banho, ler teu post me fez bem. Além de me deixar atenta para os descontos dos possíveis remédios que precisarei.

    beijo

    • Letícia F. July 18, 2012 at 17:19 - Reply

      Vá em frente. É muito difícil, horroroso mesmo. Mas é possível superar.

  4. Patricia July 18, 2012 at 17:56 - Reply

    Trabalho em uma clínica psiquiátrica há 10 anos. Tenho vários antecedentes psiquiátricos na familia, inclusive uma irmã que se matou, mas por mais foda que possa parecer, eu tenho certeza que sou depressiva, ´mas não busco tratamento por medo de acabar no inicio ficando mal, e infelizmente eu não tenho esse suporte de familia, de pessoas próximas pra me ajudar (ainda tenho uma filha de apenas 6 anos), então o tempo vai passando, quando sinto que estou entrando em crise, tomo fluoxetina que tenho acesso livre no meu trabalho (amostra grátis), e assim vou “empurrando com a barriga”. Sei que estou errada, mas pelomenos por enquanto é o que me segura em pé!

  5. Fabiane July 18, 2012 at 18:54 - Reply

    Tirando a arte dos florais de bach e da acumpultura, perfeito.

    • Letícia F. July 18, 2012 at 19:39 - Reply

      Fabi, por isso que eu disse que depende da crença de cada um.

  6. Diário da depressão July 18, 2012 at 22:34 - Reply

    Boas dicas, Letícia! Meus comentários a elas:

    1) Procurar ajuda médica é importantíssimo. Quem desconfia de que esteja com depressão, procure o mais rápido possível. Não façam como eu, que demorou 3 anos entre a recomendação de um clínico geral nos primeiros sinais e a primeira consulta com um analista;

    2) Eu estava prestes a ir a um psiquiatra, indicado pelo meu analista, para que ele me receitasse um antidepressivo. Nesse meio tempo, fui a um médico ortomolecular bem recomendado por causa de uma TPM brava que tive. Além da TPM, contei a ele que tinha períodos de depressão e que fazia análise. Além do composto para TPM, ele receitou triptofano e florais de bach. Estou tomando há três meses e me sinto bem melhor. E esses últimos dias de frio e chuva, que pioravam meu estado de espírito, não me afetaram.

    Outro dia alguém recomendou aqui no blog um grupo de apoio, Emocionais anônimos. Fui pesquisar e descobri que tinha um grupo perto de onde moro. Porém, as reuniões eram em uma igreja católica e as mensagens no site do grupo eram de conteúdo religioso. O problema é que eu sou atéia e por isso perdi o interesse. Será que existe algum outro grupo de apoio que não seja fundamentado em religião?

  7. Aninha July 19, 2012 at 06:28 - Reply

    Eu vivo fora do Brasil e agora estou nessa luta contra a depressao – e praticamente sozinha. Minha família nao faz nem idéia do que eu estou passando. Precisei me afastar dos meus estudos, pois eu nao estava aguentando a pressao e a doenca me trouxe distúrbios sérios de concentracao e aprendizagem (coisa que nunca tive). Tenho medo de contar, pois se conheco bem, eles vao dizer que isso é preguica, vadiagem, falta de levar uma surra! Por essas e outras eu gostaria que existisse também um remédio para idiotice – depressao eu sei que tem tratamento, já ignorância…
    Meu marido está sempre do meu lado e ele faz o que pode
    Depois de 2 meses de espera eu vou finalmente ter uma consulta com o psiquiatra. Liguei para mais de 20 consultórios e só consegui esse horário. Durante esse meio tempo a psicóloga da faculdade tem me ajudado muito.
    Letícia, se você nao se importar de responder, como foi contar isso pra sua família? Eles te ajudaram? Eles compreenderam?
    Sabe, eu me sinto culpada por ter que “ocultar” isso. Mas morro de medo de falar qualquer coisa e eles me deixarem pior do que eu já estou!!!

    • Letícia F. July 19, 2012 at 14:59 - Reply

      Aninha, minha família acha que é frescura. Minha mãe finalmente entendeu que há algo que eu não consigo controlar, mesmo… Ela é a única pessoa da família com quem converso a respeito.

  8. Li July 19, 2012 at 08:03 - Reply

    muito bem escrito. parabéns!

  9. Diário da depressão July 19, 2012 at 14:55 - Reply

    Letícia, olha um exemplo de “desinformação” sobre depressão. O pior é que pode ser considerada informação de qualidade por vir de um escritor famoso e “imortal”:

    http://sergyovitro.blogspot.com.br/2012/07/transtornos-e-desordens-joao-ubaldo.html

    • Letícia F. July 19, 2012 at 15:04 - Reply

      Que triste. E eu gosto tanto do João Ubaldo… :/

    • Letícia F. July 19, 2012 at 15:04 - Reply

      Que triste. E eu gosto tanto do João Ubaldo… :/

      • Bruno S July 19, 2012 at 15:39 - Reply

        Quando parei de ler a coluna dela, há uns cinco anos ele já estava intragável.

        Aparentemente, a coisa ficou bem pior.

        • Letícia F. July 19, 2012 at 16:00 -

          Eu não leio faz tempo, também.

  10. line July 19, 2012 at 17:09 - Reply

    Otimo post, muito esclarecedor!
    Quanto a procura do medico psiquiatra, não tive uma boa experiencia, quem me diagnosticou com depressão foi um clinico geral, mudei varias vezes de remedio com orientação dele ate que decidi me consultar com um psiquiatra, se eu te falar que a consulta durou 10 minutos você acredita? Ele só me mandou tomar 2 comprimidos de remedio que eu ja tava tomando, não fez uma anamnese, não perguntou como eu estava me sentindo e nem se haveria um porque de eu estar assim, sai da consulta muito frustada, acho que esperava mais perguntas direcionadas por ele ser psiquiatra, o clinico geral foi muito melhor, mais detalhista e mais preocupado…E

    • line July 19, 2012 at 17:14 - Reply

      E outra coisa, uma semana depois ele ligou na minha casa, como eu não estava queria o numero do meu celular, minha mãe foi procurar e enquanto isso perguntou o que ele achou, como eu estava e ele disse que isso não interessava a ele e desligou o telefone na cara dela, noooossa eu queria ligar para ele e xinga-lo, porque que medico é esse que desliga o telefone na cara dos outros? Mas minha mae não deixou, eu tinha retorno marcado, mas não voltei e nunca mais volto….mil vezes o clinico geral….Acabei desabafando..rs

      • Letícia F. July 19, 2012 at 19:46 - Reply

        Line, procure outro psiquiatra. Você não iria ao dentista cuidar de uma DST, né?

        • rafaela July 19, 2012 at 23:46 -

          Letícia
          Não concordo nesse ponto. Tenho depressão e outras coisas associadas – e quem dera algum clínico geral tivesse diagnosticado isso antes e visto a gravidade, desde a minha infância,talvez… Por outro lado, sou cardiologista e no momento trabalho em posto de saúde, como médica generalista. Para alguns pacientes, eu mesma iniciei o antidepressivo – claro que já marcando o dia da consulta com o psiquiatra. O problema é que, na saúde pública, quando há psiquiatra a consulta às vezes vai demorar um ou dois meses. .. Não que eu ache isso certo (a escassez/demora de serviços psiquiátricos na rede pública). Mas muitas vezes eu inicio o tratamento medicamentoso até para que a pessoa não entre num patamar de depressão tão grave que impeça uma próxima consulta – a do psiquiatra! E, se a consulta com esse profissional for demorar, eu agendo uma bem próxima comigo mesma, e tento ao máxim o colocar algum familiar como colaborador do tratamento, claro que com a permissão do paciente. O ideal seria que o psiquiatra estivesse disponível rápido mas, infelizmente, isso não acontece. Sei que com isso eu me sobrecarrego, inclusive. mas acho que o médico (médico de verdade, que tem respeito pela profissão) de qualquer especialidade clínica, principalmente se trabalhar com clínica geral ou saúde de família, pode e às vezes deve iniciar o tratamento medicamentoso para depressão.
          De qualquer forma, para continuar o tratamento, sim, é essencial ir ao psiquiatra. Se a pessoa puder, de cara, ir logo a esse especialista, melhor ainda, claro!
          beijos

          Para Line: existem maus e bons médicos em todas as especialidades… Você vai encontrar algum que seja bom tecnicamente e com quem você tenha empatia.
          Beijos

        • Letícia F. July 19, 2012 at 23:50 -

          Rafaela, eu estava falando mesmo da pessoa continuar aaaaaaaaaanos com um médico que não é especialista. Digo isso porque vejo familiares e amigas fazendo isso (o gineco passa o antidepressivo).

  11. Denise Kunelli July 24, 2012 at 23:49 - Reply

    Eu estou ainda me recuperando de uma depressão profunda. Seus posts me ajudaram muito nesse período e me inspirou a escrever meu próprio blog que pode também ajudar outras pessoas, aproveito para agradecer seus posts e para divulgar meu blog http://www.geminiruminations.blogspot.com.br/

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