Amor como prêmio

Helena de Angelo July 19, 2012 14
Amor como prêmio

Não namoro há dois anos. Não me apaixono de verdade há três. Encontrei alguns amores nesse tempo, amantes, amigos e afins; tive duas paixonites fortes, dessas que te deixam de cama. Persisti um pouco nas duas, mas levantei a guarda rapidinho ao escutar dos meus alvos que não ia rolar. Um deles até aconteceu, mas de um jeito tão torto e abusivo… prefiro comentar depois. Isso não é drama – eu escolhi, muitas vezes, não me apaixonar ou me envolver com pessoas cujo comportamento me levavam a lugares comuns dos quais me distanciei conscientemente. Mas, o que isso tem a ver com o tema do post?

TUDO!

Em 2012 duas pessoas tiveram sintomas graves de paixonite por mim. O primeiro não deu certo, mas ainda durou algumas semanas. O segundo sequer aconteceu. Eu não gostava dele romanticamente. Ponto comum aos dois rapazes: ambos achavam que o sentimento deles por mim era um prêmio. Sabedores da minha solteirice e do meu coração inabitado, eles julgaram que a paixão – deles por mim – seria motivo suficiente para eu querer estar com eles.

Grande erro: amor não é merecimento. Não, você escovar os dentes, ser bacana com a família e cuidar do cachorro não garantem a você um amor. Você estar apaixonado por mim também não garante a reciprocidade.

Essa ideia embutida em filmes e histórias de amor (e que a gente engole) esquece um bom bocado de elementos necessários para o amor ser mútuo, né? Primeiro: a química! Porque, afinal, você quer transar, beijar, abraçar e morder a pessoa amada. E química é sempre recíproca, qualquer coisa diferente disso é desejo projetado, do tipo que você tinha por um dos Backstreet Boys na adolescência.

Se você venceu a barreira da química, bom, significa que os dois têm tesão. E nada mais! Sentir atração física também não é condição suficiente para amar uma pessoa. Claro, cada um sabe o tipo de relacionamento mais adequado para sua vida, mas, no meu caso, ele é um grande caldeirão de ideais, conversas, tesão, paixão, crenças e outra infinidade de elementos. E isso muda constantemente. Então por que acreditar ser suficiente uma das pessoas estar apaixonada/amando para o outro corresponder ao sentimento?

Fomos criados em uma sociedade patriarcal, machista, capitalista e, em  maioria, católica. Doutrinas que pregam a meritocracia, no céu e na terra, levando a acreditar na recompensa por todos os bons atos, criando pessoas movidas a sentimentos egocêntricos de serem premiados. Mas, vejam só, isso não existe! A vida acontece independente de você ter sido bom ou mau, ter reciclado o lixo, tomado chá com sua avó, elogiado o chefe e amado a menina linda do escritório.

Com o amor funciona do mesmo jeito. Não podemos cobrar do outro um sentimento particular. O amor não é o prêmio pela sua insistência em fazer ser notado, o nome disso é petulância. Então, quando se apaixonar, sinta-se feliz por poder ter esse sentimento, independente de ele ser recíproco. Amar é bom. Ser amado pode ser um saco…

PinExt Amor como prêmio

Compartilhe!
  • more Amor como prêmio

14 Comentários »

  1. Fox Rafael Melo July 19, 2012 at 19:08 - Reply

    So true.
    Lembro de uma época onde, mais novo, eu acha que se eu amava alguém, essa pessoa automaticamente me amava de volta, MESMO QUE ELA NÃO SOUBESSE DISSO AINDA.

    Culpo Hollywood.

    Bom post, de fazer a gente pensar.

    • Erico Verissimo July 19, 2012 at 16:26 - Reply

      É isso mesmo.

      E por “isso mesmo” quero dizer aquilo de “porra, mas sou tão descaralhadamente legal e cavalheiro e gente-boa com essa mina, como é que ela não larga emprego e família pra ficar do meu lado?”.

      Filmão nessa hora é “O Último Americano Virgem” (1982), onde o dito cujo acima intitulado oferece o ombro amigo à moça por quem é apaixonadaço e que o canalhão da vez ~deflora~ e engravida; o cabra chega a pagar pelo aborto, só para seqüência vê-la retornar aos braços do ex-futuro papai.

      #ChupaFriendzone

      • Hades July 20, 2012 at 08:08 - Reply

        Eu vi esse filme algumas vezes quando eu era adolescente.. virgem… e apaixonado. É uma porrada na boca do estômago.

  2. Beatriz July 19, 2012 at 16:10 - Reply

    Pior que as pessoas que acham que merecem ser amadas pelo simples fato de amar são aquelas que você ama, ou se apaixona, e se sentem no direito de te fazer de gato e sapato pra satisfazer um ego doentio. No meu ponto de vista achar que a pessoa apaixonada ‘te pertence’ também é reflexo de tudo isso que ela cita no texto.

  3. Maria Maíra July 19, 2012 at 16:23 - Reply

    Gostei bastante do tema do post. E fiquei com vontade de dizer que amor como prêmio é também uma expectativa feminina, isto é, espera-se que o cara dê graças aos céus por ter a oportunidade de poder transar ou namorar com a moça. O que atrapalha as relações amorosas é a disputa de poder e por isso que o amor fica com esta cara de prêmio. E que poderes são esses? Bem, a meu ver é o poder que gera o sentimento de ser amado e de amar, o poder gerado pela disputa de quem faz mais pela relação, quem toma uma ou outra decisão. Em relacionamentos de vários anos estas dimensões se confundem absurdamente. O debate sobre as individualidades dos sujeitos precisa ganhar mais destaque. Já namorei quem me dissesse que a paixão, da minha parte, não precisava estar presente, pois o amor poderia ser construído com o tempo. Sabe, isso é conversinha para boi dormir. Acreditemos sempre na química. Ela pode não ser a finalidade de uma relação, mas certamente é O começo.
    bjs
    Maria Maíra.

  4. H. July 19, 2012 at 17:43 - Reply

    Acho que eu sofro do inverso disso… Se me amam, me sinto obrigada a, pelo menos, dar uma chance (que acaba em relacionamentos longos sem química, paixão ou… amor.).

  5. Silvia July 19, 2012 at 18:44 - Reply

    A meritocracia não é ruim, o ruim é a interpretação equivocada que se dá a isso. A gente não pode é pressupor que, só porque se empenhou e foi impecável, você mereça algo. A gente sabe que não é bem assim que acontece. Nem sempre ser o melhor aluno lhe garante um futuro promissor. Nem sempre ser o melhor empregado lhe garante a tão sonhada promoção. Nem sempre ser a melhor namorada possível garante que seu namorado irá considerar tudo isso. O risco de frustrar-se é muito alto quando se pensa em meritocracia desse jeito – e daí para cair no autovitimização é um pulo!

  6. Red Nails July 19, 2012 at 19:05 - Reply

    Adorei o post.
    Lembrei uma musica que a Etta James canta “I would rather go blind, boy…
    Than to see you walk away from me…”

    Pra mim, a chave desta musica esta no verso em que ela diz:

    “Most of all, I just don’t, I just don’t want to be free, no.”

    O foda é que:
    O amor dah errado. Eh raro dar certo.

    Alguem nos quer e sentimos nojo, dai nos apaixonamos pelas pessoas erradas… as vezes “O tempo passa, o tempo voa… e eu continuo a fim de você”, sabe… (post antigo da Leticia).

    Eu nao entendo o porque de certas paixoes (nem sei se eh algo pra se entender), mas sei que nao me apaixono facil. E eh muito dificil, raro encontrar essa pessoa especial e apaixonante.

    Doi mesmo saber que depois vamos ter q nos debater num mar de incertezas, a merce de sentimentos (nossos e dos outros). Eu sei que nao podemos cobrar nem premiar com amor, mas eu descobri que nao consigo viver soh “emanando amor”, o que teoricamente seria ideal. Amar sem esperar ser amado eh coisa pra mestre!

    Ai quebramos a cara… Dai te dizem pra trabalhar a auto-estima. Dai te dizem pra variar, sair com outras pessoas… testar outras quimicas… Dai dizem pra fazer terapia e muitas outras coisas etc etc que resolvem quase nada daquilo que esta machucando por tempo demais.

    Nao da pra viver em funcao do amor. As vezes a gente tem so que seguir em frente de qualquer jeito que der mesmo. Vivendo. Soh.

    Desculpe pela falta de acentos, pelo excesso de “pieguice” e tb pelo pessimismo de hoje. Talvez amanha passe.
    Com licenca, mas hoje o que eu quero mesmo dizer eh: FODA-SE O AMOR. EU QUERO SER LIVRE!

    • H. July 20, 2012 at 10:43 - Reply

      Por que amor e liberdade têm que ser opostos?

      • Red Nails August 1, 2012 at 12:03 - Reply

        O fato de se preferir uma coisa à outra não implica que estas sejam opostas.

    • Helena de Angelo July 25, 2012 at 17:26 - Reply

      Eu achava ser impossível viver sem estar apaixonada – sou pisciana – mas a vida foi mostrando alternativas…
      Eu acho até ruim não ser mais daquele jeito, gosto de amar, mas gosto do amor livre: amor não é propriedade, amor não deve ser encarado como mérito ou prêmio. E amar também tem formas mais amplas que aquelas às quais já estamos acostumados.

  7. Fatima Tardelli July 19, 2012 at 22:07 - Reply

    Tem a ver tambem com egolatria: o qpaixonado ou apaixonada se acha tão especial que pensa consigo mesmo "como é que fulano oumfulana PODE não me querer'? Embora ser isso normal qdo muito jovens, depois de uma certa idade isso revela imaturidade.

  8. kawai maria July 19, 2012 at 23:37 - Reply

    Eu vejo essa cobrança maior com relação as mulheres por partes dos homens do que o contrário. E é como você disse vivemos numa sociedade patriarcal que é humanamente impossível acreditar que uma mulher solteira vá rejeitar um incauto que faça a corte a ela. Há mulheres assim também, o amor,a atração simplesmente acontece.

  9. ma July 20, 2012 at 16:35 - Reply

    sempre me incomodou essa visão tbm, ja senti isso de alguns carinhas. e costumo lembrar (e me perguntar) se aquela frase do pequeno príncipe é meio por aí (não li o livro, tentei com uns 14 anos mas nao tive saco, então não sei qual o contexto): “Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas”. como, responsável?! sou responsável pela minha vida e pelos meus sentimentos, no máximo serei responsável por um filho que posso ter um dia. uma vez ganhei uma camiseta com essa frase e nunca usei, sempre tive bronca…

Comente »